Negócio da China: os rumos dos acordos

Clientes, Marcos Morita, Novidades 18 de abril de 2011

Por Marcos Morita

As imagens da semana mostraram a presidente Dilma em diversos momentos, em sua viagem à China. Assinatura de acordos e visitas a fábricas, discursos e apertos de mãos foram à tônica de uma viagem pontuada por seu caráter comercial. Não obstante o tema do conselho de segurança e a ambígua resposta vermelha, o fato é que o espírito de Marco Polo, embaixador e mercador italiano famoso por suas viagens ao Oriente, pairou sobre a comitiva brasileira.

É inconteste o avanço dos chineses na economia mundial, o que pode ser comprovado através do saldo na balança comercial ou tomando-se como base nosso dia a dia. Desta forma, vejamos de que maneira seria um dia sem os produtos made in China. Para fins didáticos, considerarei aqueles importados e os montados no Brasil, cujo percentual de partes e peças chinesas inviabilize sua produção, caso não disponíveis.

Ainda sonolento, desperto assustado. Já passa das oito da manhã e ainda deitado. Em um sobressalto pulo da cama, tomo banho e saio com a barba por fazer. Na mesa, pão frio e leite sem café, já que a cafeteira e a torradeira estão proibidas. Abro o armário e levo um tempo, procurando calça, camisa e meia nacionais. Enfrento o congestionamento sem poder ligar o rádio para escutar as melhores alternativas. Algo digno de uma manhã em Pequim ou Xangai.

Enfim, chego ao escritório e peço um belo café de coador. Em seguida percebo que o dia será calmo, uma vez que o notebook e o telefone em minha mesa estão fora da ordem do dia. Aproveito para ler o jornal – algo que há muito tempo não fazia – despachar com minha secretária as pendências, e dar uma volta para conversar com as pessoas no escritório, atitudes que provocam certos olhares incrédulos.

Chega a hora do almoço. Aqui posso escolher entre opções diversas – McDonald’s, Burger King, Pizza Hut, KFC, ou algo mais saudável como o Subway. Creio que ainda demorará até que rolinhos primavera e arroz chop suey, façam parte do nosso cotidiano, assim como o já assimilado junk food americano.

Aproveito a tarde para fazer reuniões e visitar alguns clientes. Percebo que ambas são bastante produtivas, uma vez que não tenho as constantes interrupções de telefonemas, e-mails, chamadas pelo rádio e mensagens sms, já que meu gadget preferido se enquadra no topo da lista.

Volto para casa inexplicavelmente no horário. Sem televisão de LCD, percebo que não poderei assistir as minhas séries preferidas: Lost, CSI, Criminal Minds ou House. Decido então ir ao cinema com minha filha: Rango, Rio ou Gnomeu e Julieta e para acompanhar, nada melhor que pipoca com Coca-Cola.

Durmo tranquilo, não porque amanhã será sábado, mas sim porque a restrição aos chineses terá acabado. Meus braços e pernas serão enfim devolvidos, já que mente e estômago, ainda são azuis, brancas e vermelhas.

Creio que apesar dos resultados positivos da visita, relativos à vinda de investimentos externos, já é passada a hora de criarmos programas de longo prazo, os quais incentivem o empreendedorismo, a pesquisa, a arte, a cultura e a inovação locais, reduzindo burocracias e estimulando parcerias entre universidades e empresas.

Entendo que não se trata de algo fácil de criar ou implantar, porém ainda tenho a esperança que meus filhos possam contar com alguns exemplos verdes e amarelos em seu cotodiano, os quais se estendam além do arroz-feijão e bife – que, diga-se de passagem, estão cada vez mais raros nos pratos dos brasileiros.

Por fim, peço aos governantes, membros da comitiva e imprensa ufanista, que reflitam sobre qual dos lados, de verdade, fez e está fazendo um negócio da China.

Marcos Morita é mestre em Administração de Empresas e professor da Universidade Mackenzie. Especialista em estratégias empresariais, é colunista, palestrante e consultor de negócios. Há mais de quinze anos atua como executivo em empresas multinacionais.

Contato: professor@marcosmorita.com.br / www.marcosmorita.com.br

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