Artigo – Dança das cadeiras: novos grupos no governo

Clientes, Marcos Morita, Novidades 13 de setembro de 2010

Por Marcos Morita

Faltam apenas três meses para que novos integrantes cheguem às residências e gabinetes oficiais. Presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais levarão seus melhores assessores e seguidores para as posições consideradas estratégicas. Entre os cargos de confiança destacam-se ministros, secretários, presidentes de estatais e chefes de gabinetes.

Apesar dos recém-chegados, vale salientar que a grande maioria dos funcionários lá está há muito tempo. Partidários ou não, é fato que mudanças ocorrerão nos primeiros meses de governo, sobretudo no que tange a estrutura organizacional – a dança das cadeiras é a parte visível do iceberg. A grande revolução, entretanto, ocorrerá de maneira silenciosa, através de rodinhas e conversas ao pé do ouvido nos corredores e subterrâneos das repartições, denominada como estrutura informal ou rádio-peão em sua versão mais coloquial.

Elton Mayo, cientista social australiano, coordenou em meados da década de trinta uma experiência na sede da Western Eletric em Hawthorne, distrito de Chicago, cujo objetivo era verificar eventuais relações entre condições ambientais de trabalho e os níveis de produtividade dos funcionários.

Um grupo foi escolhido, separado e submetido a diversas mudanças positivas, tais como introdução de intervalos nos períodos matutino e vespertino, oferta de lanches leves, redução no horário de trabalho e folga aos sábados. Saliento que as empresas vivenciavam a teoria clássica da administração, a qual apregoava a divisão do trabalho, o foco nas tarefas e as relações subumanas entre empregado e empregador. Os resultados demonstraram que a produção continuava a subir, mesmo após a retirada dos benefícios concedidos, o que colocava por terra a hipótese inicial do estudo.

Entrevistas foram conduzidas, visando desvendar os motivos que levavam os funcionários a adotar posturas tão diferentes na sala de provas e em seus departamentos. Supervisão branda, trabalho com mais liberdade, menor pressão, ambiente amistoso, satisfação no trabalho, desenvolvimento social do grupo, amizades e objetivos comuns foram alguns dos pontos levantados pelos participantes. Desvendava-se pela primeira vez, a importância dos fatores psicológicos e sociológicos nas organizações. O pêndulo começava a mudar das máquinas para as pessoas.

Outra constatação foi a existência dos chamados grupos informais. Formados pelos próprios operários para zelarem do seu bem-estar, atuavam à margem da estrutura formal, definindo muitas vezes suas próprias regras de comportamento, recompensas e sanções, objetivos, crenças, escala de valores e expectativas. Em Hawthorne, controlavam e estabilizavam a produtividade dos funcionários, estabelecendo seus critérios e punindo aqueles que deles se desviassem. Qualquer semelhança com sindicatos e sindicalistas talvez não seja mera coincidência.

Como em todo processo de mudança profundo e radical, o que é esperado dos novos governantes no próximo ano, envolver toda a organização é condição sine qua non. É indispensável aos gestores que estejam atentos aos grupos informais, identificando-os e mapeando seus líderes, convicções e rede de seguidores, os quais podem sabotar ou dificultar a implantação das reformas, caso sejam postos de lado. Com sabedoria, os mesmos podem ser utilizados como fonte de influência, alterando o comportamento e padrões de seus indivíduos, angariando sua simpatia à nova causa e preparando o ambiente para que a dança das cadeiras seja menos traumática e dolorosa. Assim esperamos.

Marcos Morita é mestre em Administração de Empresas e professor da Universidade Mackenzie. Especialista em estratégias empresariais, é colunista, palestrante e consultor de negócios. Há mais de quinze anos atua como executivo em empresas multinacionais.

Contato: professor@marcosmorita.com.br / www.marcosmorita.com.br

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